Um Cravo que Toca
Filipe Pereira
No dia 25 de abril de 1974, Celeste Martins Caeiro passeava nas ruas de Lisboa com um molho de cravos vermelhos na
mão. Celeste não era florista, não cultivava flores, e muito menos tinha um jardim, mas a Celeste plantou um mar de cravos vermelhos que brotaram da ponta das armas dos militares que faziam a revolução no largo do Carmo nesse mesmo dia. Dezoito mil duzentos e cinquenta dias depois, que é como quem diz, 50 anos, a imagem desses cravos continua viçosa (mas atenção, é preciso cuidar dela).
Entretanto, no decorrer deste tempo o primeiro cravo que a Celeste ofereceu das suas mãos foi mudando de cor, alterou o seu perfume e murchou. Soltou as folhas, tombou de corola ao chão (corola é o nome dado conjunto da pétalas) e deitou-se. Foi-se libertando gradualmente da sua imagem perfeita e pomposa e transformou-se… em composto orgânico! A seguir, múltiplo que era nesta nova massa de
moléculas fundiu-se na terra e gerou novas flores: desta forma vive a liberdade.
Diversos